Subsídios para a história FRATEL

Subsídios para a história de PERAIS

   

RODAM  -  UMA   HISTÓRIA  MILENAR

   
LOCAL DE ENCONTRO DE POVOS
   

Música de fundo: Hino de Nª Sª da Alagada, com características das Saias Alentejanas. Digitalização de A. Escarameia

   

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RODAM E O SEU TEJO, 

ANTES E DURANTE A HISTÓRIA

 

Nem sempre o leito do Tejo correspondeu ao que hoje lhe conhecemos. Há muitos milénios, as suas águas cobriram esta vasta região espraiando-se até à Serra das Talhadas. A acção erosiva das águas deu origem a duas gargantas que hoje chamamos "Portas de Ródão e "Vale Mourão". 

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É de salientar a quantidade de pedras roliças - "conhos" - que se foram depositando na margem esquerda, a jusante das Portas de Ródão. A enormidade destas cascalheiras, pela sua beleza natural, pelo seu colorido e pelo testemunho natural que representam, são dignas de ser admiradas. Estão votadas ao abandono, acontecendo que alguns industriais menos sensíveis às belezas naturais,  as vão destruindo, para as transformar em brita.

 (É pena que as Câmaras Municipais de Nisa e Vila Velha de Ródão ainda não se tenham apercebido  da beleza natural ali patente, para promoção turística da região).

 

A PRESENÇA DO HOMEM PRÉ-HISTÓRICO

 

 

A nível arqueológico, Vila Velha de Ródão, é um dos concelhos da Beira Interior mais explorados e estudados por especialistas da pré-história. A carta arqueológica do concelho apresenta-se bastante rica.

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A presença do rio Tejo e da extensa rede hidrográfica de afluentes a ele ligados, parece-nos ter extrema importância para explicar a presença do Homem nesta região, desde tempos muito recuados. 

  Até há bem pouco tempo, quase tudo desconhecíamos da presença do homem pré-histórico nos territórios ribeirinhos do Tejo, a montante de Abrantes. Porém, a partir dos inícios dos anos 70, este panorama alterou-se por completo com os trabalhos efectuados no concelho de Vila Velha de Ródão. O rio, afinal, desde que devidamente prospectado, não podia deixar de revelar-se como um "universo" privilegiado para a presença ou passagem do Homem.

Primeiro surgiu o mais extraordinário complexo de Arte Rupestre do país, engolido pelas águas da barragem de Fratel. Depois foi a descoberta das marcas das comunidades de caçadores do Paleolítico, ao longo das antigas margens do Tejo.  

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Foi graças aos trabalhos do Grupo de Estudos do Paleolítico Português, na região, que o Paleolítico de Ródão é hoje representado por uma vasta colecção de artefactos líticos, de idades e culturas diferentes, provenientes de várias estações localizadas essencialmente na área de Vila Velha de Ródão. 

Entre as mais importantes contam-se :

- "Monte do Famaco", estação do Paleolítico Inferior, possívelmente uma grande oficina ao ar livre, um local de habitat provisório.

- "Vilas Ruivas", Paleolítico Médio, trata-se de um acampamento,  com estruturas de habitat organizadas e com utensilagem inserida no complexo técnico Mustiero-Levalloisence.

- "Foz do Enxarrique", Paleolítico Médio-Superior, é uma estação que se tem  revelado particularmente importante, não só porque já se detectou um solo de ocupação humana e uma indústria lítica muito rica, produzida no local, como também pela recolha de restos faunísticos bastante representativos: grandes mamíferos, entre os quais o cavalo, o auroque, o elefante, o veado e pequenos mamíferos, tais como, pássaros e peixes. 

Quanto aos testemunhos do período Neolítico/Calcolítico, eles estão intimamente relacionados com o Megalitismo.  

Inicialmente detectado e parcialmente estudado por Francisco Tavares Proença Júnior, o fenómeno Megalítico tem sido nos últimos vinte anos, atentamente prospectado e inventariado pelos membros do Núcleo Regional de Investigação Arqueológica - A.E.A.T.

Conhecem-se, desta zona, várias dezenas de monumentos megalíticos, vulgarmente designadas por Antas, que são geralmente pequenas construções de câmara poligonal e corredor, com aparelho de xisto. Estes monumentos apresentam-se em precário estado, alguns deles quase completamente destruídos. O espólio destas Antas é considerado pobre em relação ao de outras regiões (nomeadamente ao vizinho Baixo Alentejo). Os povoados do período que consideramos são muito poucos no aro concelhio de Ródão e o mais importante é, sem dúvida, o povoado da Charneca de Fratel já escavado e estudado.

Por fim, temos a considerar as estações de Arte Rupestre do Vale Tejo, que se situam em ambas as margens do rio Tejo e seus principais afluentes ( Ocreza e Sever ). A datação destas figuras levanta dúvidas aos estudiosos mas pensa-se que abrangem um período vasto, desde o Paleolítico à Idade do Ferro. A maior parte delas encontra-se submersa desde a construção da barragem de Fratel (1974), sendo actualmente visíveis apenas pequenos núcleos ( o de S. Simão, em Perais, e outro a jusante da barragem de Fratel, perto da linha de caminho de ferro).

Poucos vestígios nos aparecem, no nosso concelho, tipicamente datáveis do período do Bronze-Ferro. Para além das gravuras em forma de ferradura (motivo cronologicamente situável na Idade do Ferro), que nos aparecem nas freguesias de Perais e Sarnadas, temos somente dois povoados que atribuímos a este período - os Castelinhos de Perais e o Castelejo do Tostão - com algumas interrogações, e ainda a estação de superfície da Fraga, em Sarnadas de Ródão.

 

 

 

 

ÉPOCA MEDIEVAL.

Da época Romana os vestígios encontrados são de maior monta. Apesar disso, a pobreza dos materiais é uma constante.  As quatro estações mais importantes - para além da magnífica barragem em terra, da Represa da Lameira, em Perais, caso único na Europa - são a da Revelada,  a da Fonte dos Piolhos, a do Açafal e do Salgueiral, encontrando-se todas por escavar e estudar. 

A cerca de 1km da estação da Revelada situa-se a Buraca da Moura, mina de Cobre, cuja exploração alguns remontam a esta época. Outros  julgam ser de origem mais recente, atribuindo-lhe como época de actividade os séc. XV/XVI. Esta mina, está situada ao lado da Ponte de Caminho de Ferro (Ponte de São Pedro).  Em 1973, um grupo de  professores, entre os quais o signatário destes apontamentos, entrou dentro da galeria, semi-obstruída e verificou que a mina estava escorada com madeira que se presumia (pelo menos aparentemente)  não ter uma origem tão remota. 

Em finais dos anos 70, um inverno chuvoso fez abater a entrada da mina, ficando fechada para sempre. Hoje, exactamente sobre a entrada, passa a estrada que dá acesso a Porto do Tejo.

 

DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICA

 

 

I

 

Parece inútil procurar qualquer documento histórico anterior ao século XII, sobre o território do actual concelho. Não se lhe conhece foral, o que não significa que este não tenha existido. Deve-se crer que os Templários, que aforavam quantos castelos possuíam, com os seus termos, nos séculos XII e XIII, também tivessem dado foral a Açafa ou Ródão, perdendo-se dele memória, o que não surpreende numa vila e concelho que é dos mais escassos em documentação histórica, no nosso país.  Deve-se tal facto a dois acontecimentos ocorridos entre 1840 e 1900 : o incêndio dos Paços do Concelho (em 1846), onde existia uma documentação rica do passado de Ródão e a extinção do Concelho (1896), com a consecutiva retirada de documentos para o arquivo Distrital, pois a restauração do mesmo só ocorre em 13 de Janeiro de 1898.

Poderá haver alguma  documentação no Arquivo da Câmara Eclesiástica da Guarda, e nos Arquivos do Paço de Castelo Branco, em virtude destas paróquias terem,  pertencido sucessivamente àquelas dioceses até que esta última foi extinta, passando depois para a diocese de Portalegre.

A doação de um território que inclui o do actual concelho , feita entre 1115 e 1118, prova que esta região pertencia ao Condado Portucalense, já desde o tempo de D. Teresa.  

O documento mais antigo que menciona a região de Ródão data do ano 1186. Trata-se do Foral da Covilhã.  Este foral, concedido pelo rei D. Sancho I, menciona a região das Portas de Ródão como o limite sul daquele concelho e refere a  necessidade de estabilizar as fronteiras e desenvolver economicamente uma área tão escassamente povoada. 

 Em 1199, este monarca concedeu,  em paga dos bons serviços prestados pelos Templários, a região da Açafa,  ao Mestre do Templo, D. Lopo Fernandes. Era esta Herdade uma vastidão de terras a confrontar com o termo da Idanha, já em posse dos Templários, indo de lá, até ao ribeiro de Figueiró e rio Ocreza, com passagem por Vila Velha de Ródão. 

O território dos Templários é agora alargado para o sul e leste, ocupando uma vastidão territorial que vai desde o ribeiro do Figueiró, Anta da Milriça, em Castelo de Vide, Portagem (a sul de Marvão), Igreja de Nª Sª de Manjarretes, ainda existente, junto ao convento de S. Pedro de Alcântara, já em Espanha (hoje restaurante), ribeira David, (junto a Valência de Alcântara), castelo de Terrón (em São Vicente), mosteiro de Palante, em ruínas, (perto de Solarino), Rio Salor e daqui até ao Tejo, frente ao rio Erges.

Convém recordar que, nesta época, toda aquela área pertencia ao domínio da coroa portuguesa.

Quanto aos limites, a sul do Tejo,  da Herdade da Açafa, doada aos Templários, muito se tem escrito, por gentes de muito saber, mas também muitas imprecisões se têm cometido, certamente pelo facto de os seus autores não conhecerem, ou pelo menos, não terem visitado, in loco, as referências de limite, apontadas no documento de doação. É o caso de Alexandre Herculano e de Mário Saa que confundiram o castelo de Terrom com o castelo de Nisa, Palantre ou Alpalantre com Alpalhão,  Mongaret com Alegrete,  ribeira David com rio Sever... Estes escritores tentaram fazer história, sem terem visitado estes locais.

Eis os termos da dita doação:

"... Partitur enim ultra Tagum per Focem de Figueyroo, quomodo intrat in Tagum, deinde intrat ad rostrum de Merlica et vadit ad Mongaret deinde ad Cimalias de Aqua de Vida, deinde ad Castellum de Terrom quomodo vadit ad Monasterium de Palantri deinde ad semederium de Benfayam, deinde ad Portum de Mola de Salor, quomodo vertuntur aquae de Tagum"

Faltam-nos documentos que acompanhem a evolução jurídico-administrativa do território da Açafa, a partir daquela doação e da sua transformação no concelho de Vila Velha de Ródão. 

A existência do pelourinho Manuelino confirma, no entanto, a autonomia municipal que, seguramente, esta vila conquistou posteriormente ao século XIII.  A sua área era de grande importância como ponto estratégico na delimitação das fronteiras cristãs face aos muçulmanos e na garantia da liberdade de navegação do Tejo, empresa atribuída aos Templários, assim como para o povoamento da região da Beira. Daí a necessidade de edificação de castelos como o de Almourol e das Portas de Ródão que teria sido fundado (provavelmente) por D.Gualdim Pais.

  No "Numeramento do Reino" de 1527, não nos aparecem indicações sobre o número de habitantes de Vila Velha de Ródão, apesar de se lhe fazer referência como limite das comarcas da Beira e de Entre-Tejo e Guadiana.

  Em 1708, a Vila era "vigararia" da Ordem de Cristo, comenda do conde de Atouguia e contava apenas 160 fogos. 

 

 

II

 

 

Em 1758, o Marquês de Pombal enviou ao Bispo da Guarda um inquérito para que este o distribuísse por todos os párocos da sua diocese. Tivemos acesso a este inquérito do qual extraímos alguns dados, com data de Abril de 1758:

"Tem esta fregusia de Vila Velha de Ródam 172 fogos e 438 fregueses. Alem da sede, tem esta freguesia os lugares seguintes: Gaviam, com 50 vezinhos; Tavilla, 7; Val de Cabram, 5; Foz de Cabram, 9; Cham das Cervas, 6; Monte Queimado, 1; Sarnadinhas, 8; Alvaiade, 13; Sereijal, 5; Tostam, 6; Cocherre, 3; Serrasqueiras, 10; Coutada, 15; Val de Pouzadas, 7; Perais, 14; Casa Honrada, 1.

O pároco é colado e tem de renda 32 mil réis em dinheiro e 78 alqueires de trigo e 78 alqueires de senteio.

Tem as seguintes ermidas: Sam Pedro, dentro da villa; Sam Sebastiam e Espírito Santo, junto à mesma villa; Senhora do Castello, da Alagada e Senhora da Graça, nos limites.

À Senhora do Castello acodem vários romeiros todos os anos no dia último de Agosto e fazem novena até dia 8 de Setembro".

 

Censo da freguesia de Vila Velha de Ródão:

O pároco, em 1758, atribuiu-lhe 172 fogos e 438 habitantes.

O censo de 1864 atribuiu-lhe 355 fogos e 1.454 habitantes e o de 1878 deu-lhe 430 fogos e 1.652 habitantes.

 

Censo do concelho de Vila Velha de Ródão:  

Em 1708, o concelho compreendia já as mesmas 4 freguesias de hoje - Vila Velha de Ródão, Alfrívida (actualmente Perais), Sarnadasde Ródão e Fratel - com um total de 560 fogos.

Pelo recenseamento de 1878, contava 1323 fogos e 5.233 habitantes.

O censo de 1940 atribuiu-lhe 9.693 habitantes.

A partir dos anos 80, começa a grande derrocada. Para isso contribuíram  vários factores a que não está alheia a política da não criação de condições, para fixar os jovens casais e o não aproveitamento das potencialidades turísticas da região.

Em 2003, a população era inferior a 4.700 habitantes.

Actualmente (em 2010) não irá além dos 3800 habitantes.

 

Centro de passagem: Para além da estratégica posição de defesa que ocupava, a importância de Ródão advém do Porto do Tejo que dava passagem a uma estrada comercial e pastoril fundamental para o desenvolvimento das regiões da Beira Baixa e Alentejo. O gado atravessava-a em direcção aos pastos estivais da Serra da Estrela e inverniços do Alentejo. 

A travessia do Tejo era feita através de uma ponte de barcas, até à construção da ponte metálica em 1888.  

O tráfego fluvial foi muito activo até à construção do caminho-de-ferro, em 1885-93, que o substituiu.

   A construção da ponte metálica e do caminho-de-ferro contribuíram decisivamente para o desenvolvimento deste concelho, comprovado pelo aumento da sua população, que se verificou até meados do século passado. A partir daí, tem-se verificado um decrescimento da população, de tal maneira acentuado que se torna alarmante.

 

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